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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um Natal Feliz e Alegre

 
Dom Fernando Arêas Rifan*


Em companhia de Maria e José e incentivados por São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 4,4), vamos celebrar nesta quinta-feira o Santo Natal, feliz e alegre, como foi o primeiro Natal. Nasceu Jesus, o Messias! Deus se fez homem! E os anjos anunciaram aos pastores essa felicidade. A reaparição da estrela misteriosa fez renascer a alegria e a felicidade no coração dos Magos que vieram do Oriente (Mt 2, 10).

Segundo a filosofia (Cícero e Boécio), felicidade é o estado constituído pelo acúmulo de todos os bens com a ausência de todos os males. Então, como poderemos chamar feliz um Natal onde houve desprezo, rejeição – Jesus nasceu numa estrebaria por falta de lugar para Ele nas casas e nas hospedarias -, lágrimas, gritos, morte, luto – Herodes, perseguindo Jesus, mandou matar as crianças de Belém – fuga, desterro, pobreza, sacrifícios? Realmente, felicidade perfeita, na definição filosófica, só se encontrará no Céu, na Jerusalém celeste, onde Deus “enxugará toda a lágrima dos seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque tudo isto passou” (Ap 21,4).

É a grande lição do Natal: é possível ser feliz na dor, no desprezo, no luto, aqui na terra. Aqui, a felicidade consiste em ter Jesus, em estar com Jesus, em amar Jesus de todo o coração, com a esperança de tê-lo perfeitamente um dia no Céu. Talvez tenha sido essa a felicidade que Assis Valente, autor de “Anoiteceu”, não conhecia quando a pediu ao Papai Noel. Talvez por isso tenha se matado, pois ele e ela, como ele imaginava, não vieram.

Não se vai à Igreja para parar de sofrer, já que o sofrimento é inseparável da vida humana, mas para aprender a sofrer. O cristão é otimista e feliz, por causa da esperança, mesmo que sofra. Por isso, o primeiro Natal foi cheio de felicidade. A pobre estrebaria de Belém era o Céu. Faltava tudo e não faltava nada. Ali estava a felicidade e a alegria: Jesus.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Papa Francisco, Evangelii gaudium, 1). O presépio de Belém é o princípio da pregação de Jesus, o resumo do seu Evangelho. Daquele pequeno púlpito, silenciosamente, ele nos ensina o desprezo da vanglória desse mundo, o valor da pobreza e do desprendimento, o nada das riquezas, a necessidade da humildade, o apreço das almas simples, a paciência, a mansidão, a caridade para com o próximo, a harmonia na convivência humana, o perdão das ofensas, a grandeza de coração, enfim, as virtudes cristãs que fariam o mundo muito melhor, se as praticasse.

É por isso que o Natal cristão é festa de paz e harmonia, de confraternização em família, de troca de presentes entre amigos, de gratidão e de perdão. Pois é a festa daquele que, sendo Deus, tornou-se nosso irmão aqui na terra, ensinando-nos o que é a felicidade.

É assim que desejo aos meus caros leitores um verdadeiro ALEGRE E FELIZ NATAL!


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

14 de dezembro - São João da Cruz - Doutor e Místico do Carmelo




São João da Cruz é um emblema deste tipo de homem

Vivido entre 1542 e 1591 na Espanha, sua vida é marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior.

Órfão de pai aos 3 anos, João de Yepes – seu nome civil – prova o esforço da mãe que procura corações benevolentes a garantir-lhe a sobrevivência. Na adolescência pode trabalhar e estudar.

Aos 21 anos faz-se religioso carmelita, mas sofre a angústia de não poder viver ali como queria, e sonha com a austeridade e o silêncio monástico dos cartuxos.

No ano em que se ordena sacerdote, em 1567, encontra-se com Santa Teresa, que o conquista para a sua obra de reforma entre os frades. No ano seguinte, em 1568, torna-se o primeiro carmelita descalço, assume o novo nome de João da Cruz e vive momentos de indescritível felicidade, num casebre perdido da zona rural de Ávila. A partir daqui empenha-se, até o fim da vida, em diversas tarefas entre os carmelitas descalços que vêem-se em ligeira expansão. Sua missão somente é interrompida pela perseguição dos padres da Ordem Carmelitana, que o escolhem como vítima do conflito gerado pelo crescimento dos descalços. Durante 9 meses, entre 1577 e 1578, é encarcerado no convento da cidade de Toledo. No meio de um sofrimento físico e moral somente imaginável por quem passou pela dura realidade da prisão, brotam do seu coração as mais belas poesias místicas já escritas, que revelam a experiência de um Deus que se faz prisioneiro do nosso amor.

Terminado o tempo da prisão, retoma suas atividades, até o ano de 1591, quando, em meio a uma surda perseguição dos seus próprios superiores, alegra-se por ver aproximar-se o almejado momento de poder ver rompida a tênue tela que o separava do seu divino amado.

São João da Cruz deixou-nos escritos de maravilhosa profundidade de vida espiritual. Seus escritos revelam a densidade de vida que ele mesmo viveu, e constitui doutrina insuperável, pela originalidade das considerações, a respeito do itinerário da vida cristã, desde seus primeiros passos às mais altas realizações nesta vida. A forma que envolve o conteúdo dos ensinamentos do místico doutor, é de igual modo, plena de beleza poética, pois somente a poesia é capaz de expressar sentimentos e realidades indizíveis.


Além das cartas, de pensamentos e ditos e outros escritos menores, São João da Cruz deixou-nos quatro grandes escritos que interrelacionam-se e onde desenvolve o dinamismo que toda pessoa humana é chamada a percorrer em sua relação com Deus. Tais obras são: Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de Amor. As duas primeiras obras acentuam a purificação como passagem e caminho que concretiza a união, purificação que envolve atitudes que têm por protagonismo ora a pessoa que responde à graça, ora Deus mesmo que, aos passos da pessoa, toma o processo em suas mãos. As outras obras, ainda que tocando a realidade da purificação, centram sua atenção na vivacidade do amor que tudo pervade e nas consequências positivas da união com Deus, ideal último para o qual todos nós fomos criados.

O centro de tudo é sem dúvida o amor: força propulsora do processo, objeto de purificação que consiste em concentrar toda a sua força para Deus, fim e ideal do caminho. A união com Deus é união de amor com aquele que é amor. Ordenado para Deus, nosso amor recupera sua veemência, sua característica de força e movimento, afinal o amor é forte como a morte e sua medida é ser sem medida. Tão infinito como Deus é o amor, e, do mesmo modo como ele nos amou, à loucura, quando o amamos, somos levados a cometer por ele loucuras de amor. “Com ânsias de amores inflamada”, diz um trecho de uma sua poesia, é assim que a alma caminha em seu caminho com Deus e para Deus. Amando assim, este santo carmelita tornou-se, sem dúvida, um louco, louco de paixão por Deus, e nenhum de nós que dele se aproxima e por ele deixa-se guiar, pode deixar de almejar a mesma loucura, de um mesmo amor.

Sua Vida e Obras


Primeira Missa

A primeira Missa por ele celebrada foi no Convento de Sant’ana em Medina Del Campo, em setembro de 1567, na oitava da natividade de Nossa Senhora. Estavam presentes sua mãe e seu irmão mais velho, Francisco, com sua família. Um santo temor o havia levado a recusar a dignidade sacerdotal; somente a obediência às ordens de seus superiores o fez vencer os escrúpulos. A convicção de sua indignidade se fez sentir vivamente ao iniciar a celebração. Despertou-lhe o desejo ardente de ser inteiramente puro, para com as mãos imaculadas tocar o Santíssimo. Do íntimo de seu coração, formula o pedido para que Deus o preserve de ofendê-lo mortalmente.(p.25).

Visões

O crucificado lhe aparecia frequentemente em visões…em sua doutrina, João declara que as visões, locuções e revelações são de pouca importância para a vida mística. Neste particular, ele sempre chamou a atenção para o perigo da ilusão, se alguém atribuir muita importância a esses fenômenos. Tal fato consistiria num obstáculo ao caminho da união…O fato de se ter manifestado sobre as duas visões evidencia sua importância especial. Ambas foram seguidas de verdadeira fúria de perseguições e sofrimentos…A primeira aparição deu-se em Ávila, no Convento da Encarnação, para onde o chamou santa Teresa, a fim de assumir o múnus de confessor das monjas. Imerso, um dia, na contemplação dos sofrimentos na cruz, apresentou-se-lhe visivelmente o Cristo crucificado, coberto de chagas e inundado de sangue. Tão viva e real foi a aparição que o Santo voltando a si, conseguiu fixá-la num desenho a bico-de-pena.

A segunda aparição ocorreu em Segóvia e data do fim de sua vida…”Tínhamos no Convento um crucifixo. Um dia, ao deter-me diante dele, pareceu-me ser mais indicado colocá-lo na Igreja, porque desejava que fosse venerado não só pelos frades, mas também pelos traunsentes. Pus-me a realizar a minha idéia. Colocando-o na igreja, encontrei-me um dia diante dele em oração, quando ele me disse: ‘Frei João, podes fazer-me um pedido em troca do serviço que tens prestado! Respondi: ‘Senhor o que te peço são sofrimentos que teria de suportar por ti, e que eu seja desprezado e desdenhado por ti.’…E foi o que aconteceu. João não foi nomeado para cargo algum – mandaram-no para a solidão de La Peñuela. Foi aí que soube das pressões sofridas pelas carmelitas:foram submetidas a interrogatórios, a fim de se colherem acusações contra João da Cruz. Procuravam-se motivos para expulsá-lo da Ordem. Não muito depois, em virtude da última doença, João foi obrigado a deixar La Peñuela, onde não havia recursos médicos. Assim, chega a última estação de sua via-crucis – a cidade de Ubeda. Coberto de feridas e fraco, chega a esse lugar onde encontra o prior, Pe. Francisco Crisóstomo, seu feroz adversário, que se incumbiu de maltratá-lo de todos os modos. Assim, João atingiu o cume do Gólgota, satisfeitos seus desejos de tratos aviltantes.(p.28).


A defesa da fé o faz sofrer

Uma tarde, por volta do ‘Angelus’, João saiu, em Ávila, da igreja conventual onde acabara de ouvir confissões e dirigiu-se pelo caminho costumeiro à casinha que ocupava seu companheiro, Pe. Germano. Foi então que se arremeçou contra ele um homem, espancando-o de tal forma que o deixou jogado no chão – foi a vingança de um amante a quem arrebatara sua presa. Ao narrar o ocorrido, João acrescentou que nunca sentira na vida tão doce consolação: fora tratado como o próprio Cristo e experimentara a doçura da cruz.(p.29).

Torturas e sofrimentos

Na noite de 4 de dezembro de 1577, alguns carmelitas calçados, acompanhados de seus simpatizantes, entraram na residência dos dois confessores do Convento e os levaram presos. Deste momento em diante João esteve desaparecido. Santa Teresa soube que fora o prior Maldonado quem o raptara. Mas o seu paradeiro só foi conhecido nove meses tarde, após sua volta à liberdade. De olhos vendados, João foi conduzido, através dos subúrbios da cidade, ao Convento de Nossa Senhora de Toledo…Submeteram-no a interrogatórios e, como se recusasse a renunciar à Reforma, trataram-no como rebelde. Sua prisão era um cubículo de cerca de 3m de comprimento por 2m de largura, ‘no qual, embora fosse de estatura baixa, mal podia ficar em pé”, como nos relata Teresa. Na cela não havia janela ou orifício por onde entrasse o ar, exceto uma pequena fresta bem no alto da parede…de início era levado ao refeitório todas as tardes; posteriormente, três vezes por semana, enfim, somente às sexta-feiras…No refeitório, era-lhe também aplicada a disciplina. Ajoelhado, descoberto..recebia açoite de todos. Como suportasse tudo com paciência e amor, chamaram-no de covarde…Seu hábito ficava ensopado de sangue pelas flagelações, mas ele tinha de tornar a vesti-lo e usá-lo durante os nove meses de prisão. (p.31).

Noite escura

Quando afirma que nunca experimentara tanta luz e consolo sobrenaturais quanto no cárcere, temos de reconhecer que ele já havia ultrapassado as graças ligadas aos sofrimentos. Os versos da noite escura e do Cântico espiritual, compostos na prisão, testemunham a sua beatificante união com Deus. A cruz e a noite são o caminho para a luz celeste – eis a jubilosa mensagem da cruz. (p.33).

Sabedoria da Cruz

Manter sempre vivo o desejo de imitar a Cristo, vivendo conforme sua vida….renunciar a qualquer prazer que se ofereça aos sentidos e até afastá-lo de si, caso não contribua para a honra e glória de Deus.

“não queirais desejar nada além da cruz, sem qualquer consolação, porque isso é em verdade perfeito”.(p.223). São João da Cruz

“Quanto maiores e mais pesados os fardos, tanto melhor recompensa para quem os carrega”. (p.228).São João da Cruz

Um dia aconteceu que, em presença do Santo, uma irmã se pronunciou em termos desfavoráveis a um leigo que era hostil ao convento. Recebeu, então, o seguinte conselho: Nesse caso, vós e as demais deveis acolhê-lo com maior afabilidade; deste modo vos tornareis discípulas de Cristo”. E acrescentou: “É mais fácil suportar uma pequena amargura nessa ocasião, e encomendar esse homem a Deus que dobrar a amargura cedendo à vontade em tais sentimentos contra o próximo.(p.228-229).

Exemplo de Vida 

O amor aos doentes, os membros sofredores de Jesus Cristo, acompanhou-o a vida inteira…limpava-lhes os vasos e não permitia que por falta de recursos fossem removidos aos hospitais. “Repreendia com severidade quaisquer negligências nesse ponto”.(p.231).

João tudo fazia com admirável serenidade e gravidade, escreve padre Eliseu dos Mártires. Seu trato e conversa eram agradáveis, muito espirituais e proveitosos para os que o ouviam e com ele se abriam. Nisto foi ele tão singular e profícuo, que os que se aproximavam dele, homens ou mulheres, voltavam espiritualizados, devotos e afeiçoados à virtude….era perseverante na oração…(p.239)

João era coerente consigo, e mesmo quando superior, foi pela bondade delicada que conquistou os corações. Quando necessário repreendia, mas só com mansidão e amor paterno.(p.245).

No dia 22 de setembro de 1591, monta o burrico que um amigo pôs à sua disposição e dá início a última viagem de sua vida. É realmente uma jornada de sofrimentos. Sua perna enferma dói como se estivesse para ser amputada. E esta era a razão de seu sofrimento:começou por inchar-se a perna e depois se abriram sucessivamente cinco feridas purulentas, que lhe davam motivo para esta oração: “Muito vos agradeço, meu Senhor Jesus Cristo, por me concederdes numa só perna as cinco chagas que trazíeis nos pés, nas mãos e no peito. ..e não se queixava de modo algum entre as maiores dores.(p.250)

No dia 13 de setembro, perguntou qual o dia da semana: ao saber que Ra uma sexta-feira, ao correr do dia indagou por várias vezes a hora, pois esperava rezar Matinas no Céu. Nesse último dia de sua vida manteve-se ainda mais quieto e recolhido que antes.(p.254)

…E de repente, durante a recitação dos salmos, viu brilhar uma esfera luminosa entre o teto e a extremidade do leito…e no momento em que o Santo expirou, viu subitamente o leito circundado de clarão luminoso.(p.256).

Nem mesmo para com seus inimigos emprega palavras ásperas: o que eles lhe fazem, considera obra de Deus.(p.242).

Sabedoria da Fé

Durante o capítulo realizado em Lisboa, muitas pessoas, mesmo padres austeros, iam visitar uma religiosa cujos estigmas atraíam grande atenção e guardavam como relíquias pedacinhos de pano embebido no sangue dos estigmas. João não deu atenção ao caso nem visitou a religiosa. Mais tarde, em Granada, ao lhe perguntarem durante o recreio se havia visto a estigmatizada, respondeu: “Não a vi, nem desejo vê-la, pois muito me pesaria se minha Fé precisasse contemplar tais coisas para crescer um pouco…”(p.241).


Diretores espirituais falhos

Quantas vezes Deus está unindo a si a alma contemplativa por meio da união delicadíssima do conhecimento amoroso, sereno, pacífico, solitário…e chega um diretor espiritual que não sabe mais que martelar e malhar as faculdades, como ferreiro e…dirá: “Ande, deixe-se desses repousos que são ócio e perda de tempo…” Falta a essa espécie de diretores o necessário conhecimento; “apesar disso, metem suas mãos grosseiras em coisa que não entendem e não a deixam para quem entenda.(p.245).

Procure sempre inclinar-se

Não ao mais fácil, e sim ao mais difícil;

Não ao mais saboroso, e sim ao mais insípido;

Não ao mais gostoso, mas ao que dá menos gosto;

Não ao repousante, mas ao trabalhoso;

Não ao que consola, mas ao desconsolo;

Não ao mais, e sim ao menos;

Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;

Não ao querer alguma coisa, mas ao nada querer;

Não ao andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior e desejar entrar em toda..pobreza de tudo quanto há no mundo, por amor de Cristo.

(p.48-49).



Frei César Cardoso de Resende, ocd

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

08 de Dezembro - Solenidade da Imaculada Conceição

Homilia do Padre Françoá Costa  



Conta-se que o Beato escocês João Duns Scoto (1266-1308), estando diante duma imagem de Nossa senhora, rezou da seguinte maneira: dignare me laudare te, Virgo sacrata: Virgem Santa, fazei com que eu fale bem de vós! Em seguida, o franciscano fez as seguintes perguntas:

- A Deus lhe convinha que a sua Mãe nascesse sem a mancha do pecado original?

Sim. A Deus lhe convinha que a sua Mãe nascesse sem nenhuma mancha, pois é mais honroso para ele.

- Deus podia fazer que a sua Mãe nascesse sem o pecado original?

Sim. Deus pode tudo e, portanto, podia fazer com que a sua Mãe fosse imaculada, sem mancha.

- Aquilo que é conveniente a Deus, ele o faz ou não?

Se Deus vê que uma coisa é conveniente, que é melhor, ele a realiza.

- Logo – exclamou Scoto –, já que para Deus era melhor que a sua Mãe fosse imaculada e podia fazer que assim o fosse, ele – de fato – a fez imaculada. Decuit, potuit, fecit! Convinha e Deus podia, Deus o fez!

Logicamente, esse não foi o primeiro raciocínio em torno à verdade da Imaculada Conceição. Muitos estudiosos da ciência teológica haviam pensado nessa verdade de fé e, não obstante, encontravam dificuldades à hora de afirmá-la, basicamente duas: a universalidade do pecado depois de Adão e a universalidade da redenção efetuada por Cristo. Se todos nascem com a mancha do pecado original, como retirar a Mãe de Jesus do meio do comum dos mortais? Essa era a primeira objeção. Ademais, Cristo salvou a todos. Afirmado o anterior, será que a defesa da imaculada conceição não vai em contra dessa universalidade da redenção de Cristo que atinge a todos? De fato, esses argumentos fizeram com que alguns teólogos – como Santo Anselmo, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino e São Boaventura – negassem que Maria fosse imaculada desde a sua conceição. Logicamente, naquele tempo não havia o dogma da imaculada conceição e, portanto, nenhum deles pode ser acusado de heresia.

Ao contrário desses grandes teólogos, Eadmero (+ 1124), monge beneditino e discípulo de Santo Anselmo, mais atento à fé do Povo de Deus que se sentia atingido em sua piedade quando se afirmava que Maria teve o pecado original, ofereceu uma boa base argumentativa para defender a imaculada conceição de Nossa Senhora. A sua maneira de pensar ajudou especialmente a resolver a primeira dificuldade, aquela que se referia à universalidade do pecado. Eadmero se apoiou, por um lado na analise que pode ser feita sobre a geração do ser humano e, por outro, na onipotência de Deus. Esse autor diz que em toda concepção há que considerar duas coisas, os pais que geram (dimensão ativa) e o filho que é gerado (dimensão passiva). Na concepção ativa (geração) há continuidade e, nesse sentido, transmissão do pecado; mas na concepção passiva (a criatura que é gerada) há uma descontinuidade porque começa um novo ser e, nesse sentido, pode dar-se a ruptura com o pecado na humanidade. Estabelecida a possibilidade, o monge beneditino inglês apoiou-se na onipotência de Deus para que aquilo que é possível venha a ser real. Eadmero deixou escrito em seu “Tratado sobre a conceição de Santa Maria”: Potuit plane et voluit; si igitur voluit, fecit”: como Deus pode e quis (romper a cadeia do pecado e fazer imaculada a Virgem Maria), fez aquilo que quis. Talvez essas palavras latinas – potuit, voluit, fectit: pôde, quis, fez – já se encontravam na piedade popular que, ao parecer, cantava da seguinte maneira:

Quis e não pôde, então não é Deus;
Pôde e não quis, então não é filho;
Digam, portanto, que pôde e quis.

Com Guilherme de Ware (+ 1300), a teologia franciscana sobre a imaculada conceição de Maria começa a andar a passos largos. Esse frei inglês foi professor em Oxford; filósofo e teólogo, ao parecer foi mestre de João Duns Scoto em Oxford. Guilherme oferece o argumento para resolver a segunda dificuldade, aquela que se referia à “incompatibilidade” entre a universalidade da redenção e a imaculada conceição de Maria. Para esse autor, Maria não teve o pecado original porque ela foi redimida por Cristo antecipadamente, de maneira preventiva: ela foi preservada, pelos méritos de Cristo, de contrair o pecado original.


O “cantor do Verbo encarnado e defensor da Imaculada Conceição”, o Beato Duns Scoto – como o definiu João Paulo II – soube unir todas essas tendências a favor da imaculada conceição de Nossa Senhora com grande sucesso. Bento XVI, na audiência do dia 07 de julho deste ano, quando falou sobre o beato Duns Escoto, explicava alguns aspectos ligados a esse dogma. A descrição do Papa é muito interessante: “Na época de Duns Escoto a maior parte dos teólogos fazia uma objeção, que parecia insuperável, à doutrina segundo a qual Maria Santíssima foi preservada do pecado original desde o primeiro momento da sua concepção: de fato, a universalidade da Redenção realizada por Cristo, à primeira vista, podia parecer comprometida por semelhante afirmação, como se Maria não tivesse precisado de Cristo e da sua redenção. Por isso os teólogos opunham-se a estes textos. Então, Duns Escoto, para fazer compreender esta preservação do pecado original, desenvolveu um tema que depois seria adoptado também pelo beato Papa Pio IX em 1854, quando definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria. E este argumento é o da “Redenção preventiva”, segundo a qual a Imaculada Conceição representa a obra-prima da Redenção realizada por Cristo, porque precisamente o poder do seu amor e da sua mediação obteve que a Mãe fosse preservada do pecado original. Por conseguinte Maria é totalmente remida por Cristo, mas já antes da concepção. Os Franciscanos, seus irmãos de hábito, aceitaram e difundiram com entusiasmo esta doutrina, e outros teólogos – muitas vezes com juramento solene – comprometeram-se a difundi-la e a aperfeiçoá-la”.


Depois de um longo caminho de piedade mariana imaculista e de reflexão teológica, Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854, rodeado por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e de muitíssimas outras pessoas definiu como dogma de fé a Imaculada Conceição da Virgem e Mãe de Deus, Maria Santíssima: “declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante da sua conceição por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do gênero humano, está revelada por Deus e deve ser, portanto, firme e constantemente acreditada por todos os fiéis” (Bula Ineffabilis Deus).


Logicamente, a base bíblica dessa verdade de fé católica não pode ser mais que implícita. A inimizade entre Maria e o demônio (cfr. Gn 3,15), a plenitude de graça que há em Maria (cfr. Lc 1,28) e a benção que recai em Nossa Senhora (cfr. Lc 1,42) são realidades que, interpretadas na Tradição da Igreja, nos oferecem uma base sólida para contemplar, expor, viver e defender essa verdade da nossa fé.


Ao pensar na Imaculada Conceição, eu também gosto de pensar na pureza de vida que o Senhor pede que tenhamos e que pode resumir-se naquela bem-aventurança que diz “bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus”. Quando falamos de pureza de coração não nos referimos somente à castidade, mas àquela disposição interior que nos deixa livres para acolher o olhar penetrante de Deus nas nossas vidas e para que também nós, com uma felicidade antecipada, possamos ver – agora na fé e depois na visão – o Pai e o Filho e o Espírito Santo. A pureza do coração nos faz sensíveis às coisas do alto; um coração sujo, ao contrário, não percebe as coisas de Deus.




Bendita seja a tua pureza, 
Seja bendita eternamente.
Pois todo um Deus se recreia
Em tão graciosa beleza.
A ti, celestial princesa,Virgem sagrada, Maria,Eu ofereço neste diaA vida, a alma e o coração.Olha-me com compaixão.Não me deixes, ó minha Mãe.
(canto mariano tradicional)
Pe. Françoá Costa

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

15 de Novembro: Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos da Ordem Carmelita.


Em nossa Ordem existe uma piedosa tradição de que a Bem Aventurada Sempre Virgem Maria, em aparição ao Papa João XXII, por volta do ano 1320, teria feito a promessa do Privilégio Sabatino. Neste "privilégio", Nossa Senhora teria prometido que nos sábados, "desceria ao Purgatório" e de lá tiraria as almas dos irmãos do Carmo que encontrasse. 
Bem, com essa promessa não é dogma de fé, a Igreja, por prudência, crê que, a Virgem Maria, movida por seu amor maternal, retirará do Purgatório as almas de seus confrades carmelitas (frades, monjas, seculares e devotos do escapulário) o "mais brevemente possível", não necessariamente nos sábados. 
  
Portanto, é importante que continuemos orando pelas almas dos irmãos e irmãs falecidos de nossa Ordem, mesmo que eles já possam já estar no Céu. A oração pelas almas do Purgatório NUNCA SE PERDE. Deus sempre aproveita cada prece, cada penitência, cada sacrifício, cada Santa Missa ou obra de misericórdia que possa ser oferecida pelas Almas, mesmo que as que estão "recebendo orações" já estejam na visão beatífica de Deus. Quando isso acontece, Deus aproveita o mérito dos respectivos sufrágios para as almas que estão, digamos, mais "esquecidas" por seus familiares ou amigos. 


Santa Madre Teresa de Jesus nutria especial  devoção pelas almas do purgatório. Rezava
muito por elas e, de muitas, teve a  oportunidade de contemplar -lhes os sofrimentos e alcançar a libertação


Comemoremos com amor e piedade a memória de hoje e rezemos por aqueles nossos irmãos e irmãs da Ordem que nos antecederam na morte, para que a Virgem Maria, nossa Mãe, Rainha e Advogada leve a todos para as Mansões Celestiais, o Carmelo Celeste, onde não há mais dor, tristeza, fome, cansaço, problemas, fraquezas ou doença, onde todos são saciados pelo Amor infinito de Deus e mergulhados na mais profunda alegria e júbilo. Amém! 

Oração

Santíssima Virgem do Carmo, nossa Mãe, Santa Madre Teresa de Jesus e Santo Padre João da Cruz, rogai por nós e por nossos irmãos e irmãs carmelitas falecidos! Amém!

14 de Novembro - Todos os Santos Carmelitas

Ícone moderno mostrando os Santos e Santas do Carmelo aos pés de Maria,
nossa Mãe, Rainha e Senhora,  aos pés do Monte e junto à Fonte de Elias.
No dia 14 de Novembro o Calendário Litúrgico da Ordem Carmelita (Antiga Observância, Carmelitas Descalços e Institutos e Congregações de Espiritualidade Carmelitana) comemorou a Festa de Todos os Santos de nossa Ordem. "É uma festa muito bonita, pois, à semelhança da Solenidade de Todos os Santos (dia 01 de novembro), fazemos uma justa homenagem a todos aqueles santos, santas, beatos e beatas carmelitas (cuja santidade foi reconhecida oficialmente pela Igreja), bem como todos os habitantes do "Carmelo Celeste", que já gozam da visão beatífica da Santíssima Trindade, porém, que não foram ou não serão beatificados e/ou canonizados. 

A Ordem Carmelita "premiou" a Igreja com insignes santos: São Brocardo, São Bertoldo, Santo Alberto de Jerusalém, Santo Alberto de Trápani, Santo Ângelo da Sicília, São Pedro Tomás, Santo André Corsini, Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Teresa de Ávila (ou de Jesus), São João da Cruz, Santa Teresa Margarida Redi, São Rafael Kalinowski, Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), Santa Teresa de Los Andes, Santa Maria Maravilhas de Jesus, Beato Batista Mantovani, Beato Titus Brandsma, Beato Ciríaco Elias Chavara, Beato Francisco Palau y Quer, Beata Elisabete de Trindade, Beata Maria Sacrário, Beata Maria de Jesus, Beata Maria de Jesus Crucificado, Beata Maria dos Anjos, Beata Josefa Naval (da Ordem Secular) e muitos outros, que enriqueceram a Igreja e o mundo com o exemplo de suas vidas totalmente dedicadas ao Reino, com o testemunho de sua fidelidade a Deus e à Igreja, bem como com a sabedoria de seus escritos. 


Foram muitos os mártires que derramaram seu sangue por causa de seu amor e fidelidade a Cristo, especialmente no século XX, na Guerra Civil Espanhola e em países dominados pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. 

Três santos foram proclamados pela Igreja com o título de Doutor ou Doutora da Igreja, coisa raríssima em outras Ordens religiosas (somente a Ordem Franciscana também tem três Doutores da Igreja): Santa Teresa de Jesus (ou de Ávila), grande mestra da oração; São João da Cruz, o "doutor místico" e Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, a "doutora da pequena via". Seus escritos: autobiografias, livros sobre espiritualidade, cartas e poemas, são obras maravilhosas e celestes, que ainda hoje encantam e encantarão o mundo até o final dos tempos! 

Procuremos sempre conhecer esses nossos irmãos e irmãs! Muitos outros (dezenas) aguardam o reconhecimento oficial da Igreja a respeito de suas virtudes heroicas e milagres alcançados por sua intercessão. 

Imitemos-lhes a fé, a constância, a fidelidade, a determinação e o amor a Deus e ao próximo que os levou ao "Cume do Monte Carmelo" que é o próprio Cristo Jesus. Amém! 
Todos os Santos Carmelitas, rogai por nós! "

Reflexão

"Deus vestiu o Monte do Carmo com arroios de água, fontes cris¬talinas, árvores frondosas, plan¬tas e flores maravilhosas, ao mes¬mo tempo que adornou a Montanha espiritual com Profe¬tas, Apóstolos, Mártires, Confes¬sores, Eremitas e Doutores; quais açucenas imaculadas enchem os vales do Carmelo com o suave perfume da sua santidade. 

Os Santos do Carmo são uma grande multidão de irmãos que consagraram a sua vida a Deus, seguindo o caminho de Cristo, nos braços da Virgem Maria em oração constante e amor aos ir¬mãos, a ponto de muitos terem bordado com o vermelho do seu sangue a branca capa do hábito da Mãe do Carmo, entregando a sua vida como mártires do Evangelho. 

Eremitas no Monte Carmelo, mendicantes na Idade Média, missionários e evangelizadores nas Descobertas, mestres e pregadores nas universidades, religiosas que enriqueceram o povo com a misteriosa fecundidade da sua vida contemplativa, apostólica e orante, leigos que nas suas vidas souberam incarnar com sabedoria a suavidade do espírito do Carmelo. Esta é a grande família do Carmo que, enquanto peregrina, se dedicou à oração constante e à caridade permanente, e, tendo terminado a sua prova, nos deixou o exemplo. Agora, os nossos irmãos, os santos do Carmo, chamam-nos enquanto cantam sem cessar ao Cordeiro Imaculado, vestidos de capas brancas. 

Contemplamos hoje esta multidão imensa de quantos Deus conduziu à Montanha Santa do Carmo para lhes fazer saborear, já nesta pátria passageira, as delícias da oração, o gozo da vida do Céu e os inumeráveis frutos da árvore da Vida. 

Que o exemplo de todos estes santos seja para nós um estímulo a vivermos inebriados pelo espírito do Carmo no seguimento de Cristo e na imitação da nossa Rainha, Mãe e Irmã, a Flor do Carmelo. Padroeira, Esperança e Estrela dos Carmelitas que já reinam no Céu e dos que ainda peregrinam
os na terra.

 

Oração

Nós vos pedimos, Senhor, 
que nos assistam com a sua protecção 
a Virgem Maria, Mãe e Rainha do Carmelo 
e todos os Santos da família do Carmo, 
para que, seguindo fielmente os seus exemplos 
sirvam a vossa Igreja 
com a oração e com obras dignas de Vós.

Fontes:
www.carmelitas.org.br
www.carmelitas.pt

Tags: Santos Carmelitas, Família Carmelita, Festa de Todos os Santos da Ordem do Carmo, Santos do Carmelo.


sábado, 8 de novembro de 2014

08 de Novembro - Beata Elisabeth da Trindade


 
 
Irmã Elisabeth sempre foi atraída para o seu interior. Com plena consciência de ser um templo habitado pelo próprio Deus, esforçou-se por aquietar seu mundo interior, numa atenção de amor ao Senhor. Suas numerosas cartas revelam um coração sensível e cheio de amor, terno e mergulhado no mistério que a envolve.

“Encontrei o meu céu na terra, pois o céu é Deus e Deus está na minha alma. No dia em que o compreendi, tudo se tornou luminoso para mim e eu gostaria de confiar este segredo, bem baixinho, àqueles que amo” (Carta 107).
 
 
Cada pessoa tem sua identidade, e esta identidade se estende também à área espiritual. Ou seja, como todos temos nossa maneira peculiar de agir, de nos relacionar com o outro, de expressar nossos sentimentos e afetos, também temos nosso modo pessoal de viver a intimidade com o Senhor.
 
 
Para Elisabeth da Trindade, oração “é aquela elevação da alma a Deus em todas as coisas, que nos coloca numa espécie de contínua comunhão com a Santíssima Trindade, levando-nos, assim, a fazer tudo com simplicidade, sob o seu olhar” (C 191).

 Em outro lugar, diz a uma jovem leiga: “Não é, porventura, verdade que sua alma sente a necessidade de fortalecer-se na prece, sobretudo na oração, nesse íntimo diálogo cordial em que a alma se derrama em Deus e Deus nela, a fim de transformá-la nele?” (C 234).


 Vemos que, para a carmelita de Dijon, oração e comunhão são a mesma coisa. Oração é amor, e quem ama deseja identificar-se com a pessoa amada. Também o orante sente em si esse desejo de identificação com o Senhor, que o atrai ao deserto e lhe fala ao coração. Elisabeth da Trindade chegou ao cume de uma vida oracional, à união transformante – ou matrimônio espiritual – onde é o próprio Deus quem age e toma para si o ser inteiro da pessoa que se entrega. Seu desejo de transformação em Jesus Cristo, e Jesus crucificado, foi plenamente realizado e muito rapidamente Deus consumou sua obra na vida de Elisabeth, que se sentia “esposa do crucificado” e se apossou totalmente desse novo estado de vida.

 
Oração como amor esponsal


“Ser esposa de Cristo! Não é só a expressão do mais doce dos sonhos: é uma realidade divina: é a expressão de todo um mistério de semelhança e união”. Com esse texto, escrito em 1902, vemos sintetizado o pensamento de Elisabeth da Trindade sobre o amor esponsal a Jesus Cristo. De fato, se no relacionamento dos esposos dentro do sacramento do matrimônio pode-se experimentar esta realidade de semelhança e união, ao ponto que, após alguns anos de convivência no verdadeiro amor, um já se assemelhe ao outro e se entendam mesmo à distância e sem usarem as palavras, muito mais num relacionamento com Deus.

Como o Verbo de Deus quis se assemelhar em tudo ao homem – com exceção do pecado – e para isso se encarnou e “armou sua tenda” no meio de nós, também o coração de Elisabeth tem esse sonho de identificação. E o realiza total e profundamente. De fato, no fim de sua vida, quando a doença já havia realizado nela toda uma obra de destruição física, suas Irmãs da comunidade do Carmelo de Dijon atestam que pareciam ver o próprio Crucificado estendido naquela cama. O amor tem a característica de transformar em si tudo o que toca.

 Elisabeth elenca outras características do amor esponsal em suas obras. Já na sua célebre “Elevação à Santíssima Trindade”, diz a Jesus Cristo: “Ó meu Cristo amado, crucificado por amor; quisera ser uma esposa para vosso coração, quisera cobrir-vos de glória, amar-vos... até morrer de amor! Sinto, porém, minha impotência e peço-vos revestir-me de vós, identificar minha alma com todos os movimentos da vossa, submergir-me, invadir-me, substituir-vos a mim, para que minha vida seja uma verdadeira irradiação da vossa”.

É próprio do amor não buscar a própria glória. O egoísmo é o oposto do amor, e quem ama esquece-se para que o outro seja. “Convém que ele cresça e eu desapareça”, dizia João Batista sobre Jesus. E as pessoas que vivem o amor sabem desaparecer – sem que isso signifique anular-se como pessoa – para que o outro seja “coberto de glória”.


Sentem-se felizes ao ver isso se realizar, porque já se supõem uma mútua comunhão de dons. O que é de um é também do outro, e esta já é outra característica do amor esponsal apresentada por Elisabeth. “Ser esposa quer dizer abandonar-se como Ele se abandonou; quer dizer ser imolada como Ele, por Ele e para Ele – o Cristo se torna totalmente nosso e nós nos tornamos totalmente Dele”. Já não mais existe o “meu” e o “teu”, tudo o que é de um pertence ao outro e vice-versa.

 Vemos na carmelita de Dijon uma delicadeza de percepção das realidades humanas do desponsório para depois transpô-las ao âmbito espiritual com simplicidade e profundidade. “É fixá-lo (o Esposo) sempre com o olhar para perceber o mínimo sinal e o mínimo desejo; é entrar em todas as suas alegrias, condividir todas as suas tristezas. Quer dizer ser fecundos co-redentores, gerar almas para a graça, multiplicar os filhos adotivos do Pai, os redimidos por Cristo, os co-herdeiros de sua glória”. Assim como é próprio do matrimônio a fecundidade, também no amor esponsal não pode haver esterilidade. “Pelos frutos os conhecereis”, dizia Jesus. E o fruto de um amor desse quilate são as almas conquistadas para o Reino. Por isso, quem atingiu esse grau de comunhão com Deus não pode ficar ocioso.


 Quer trabalhar e se consumir para que todos possam encontrar esse “tesouro escondido”. A salvação das almas torna-se uma espécie de “obsessão” em sua vida. Faz tudo o que pode e sabe, para cativar as pessoas para Deus. Quer se consumir pelos irmãos assim como seu Esposo o fez numa cruz.


“Quantas coisas esse nome (esposa de Cristo) evoca sobre o amor dado e recebido, sobre a intimidade, a fidelidade, a dedicação absoluta!” Além dessas características até agora citadas, existe uma que resume e engloba todas as demais: a UNIDADE. De fato, não existe verdadeiro matrimônio sem uma total unidade. Os méritos de Jesus Cristo, as promessas, as palavras, o amor, enfim, tudo que lhe pertence se torna posse da esposa e tudo que é da esposa – dons, fraquezas, sonhos, ideais, limitações etc. – é assumido pelo Esposo. Por isso, tudo o que toca a Ele toca também a ela. É o mistério do amor que faz de dois UM.


 Deus vai preparando a pessoa para este cume de um relacionamento no amor, que os místicos chamam “matrimônio espiritual”, e está magistralmente descrito nas sétimas moradas do livro “Castelo Interior”, de Santa Teresa de Jesus. Elisabeth entendeu-o bem, por isso encerra sua descrição de uma “esposa de Cristo” com estas palavras: “Quer dizer o Pai, o Verbo e o Espírito que invadem a alma, deificam-na, consomem-na no UM por amor. Quer dizer matrimônio, o estado estável, porque é a união indissolúvel das vontades e dos corações. E Deus disse: Façamos uma companhia semelhante a eles: eles serão dois num só ser”.


Em conclusão, vemos como a Beata Elisabeth estava consciente de sua missão de esposa junto ao coração de seu Esposo Jesus. Ela emprega esta expressão muitíssimas vezes em seus escritos e cita o livro bíblico do Cântico dos Cânticos também muitas vezes – livro que inspirou a tantos místicos no concernente à doutrina sobre o mais elevado grau de intimidade com Deus como sendo o matrimônio espiritual. Deus, ao criar o homem, capacitou-o a viver esse misterioso relacionamento de amor esponsal com Ele. Dando-lhe o Espírito Santo transformou-o em templo da Santíssima Trindade pelo Batismo e o convida de diversos modos a entrar em comunhão de amor com Ele. O homem, por sua vez, traz em si uma sede insaciável de infinito, sede do próprio Deus e busca, apesar das limitações impostas por sua condição de pecador, esta união plena com o Senhor num amor forte, transformante e unitivo.

 
Mestra da oração

 Quem encontra o tesouro vai, vende tudo o que possui e volta para comprá-lo, mas depois não pode mais mantê-lo escondido, deve fazer a luz iluminar a todos, colocando o candeeiro sobre a mesa. Uma vida oracional tão profunda, chegando à união transformante de que fala São João da Cruz, não poderia ficar confinada apenas ao interior da própria beata Elisabeth da Trindade. É preciso responder a tamanho amor e gratuidade do Senhor com as obras. “Obras quer o Senhor”, dizia Santa Teresa de Jesus para quem chega às sétimas moradas de seu “Castelo Interior”.


Elisabeth não retém para si as graças que Deus lhe concede – sobretudo a de uma oração profunda e adoradora –, mas convida a todos, sacerdotes, leigos, jovens e adultos a buscar ao Deus Trindade que habita em seus corações pelo Batismo. Suas cartas são páginas do mais fino e delicado apostolado entre suas amigas e amigos. Abre a cada um deles um leque de possibilidades para o encontro com o Senhor em meio aos afazeres normais da vida que levam. Sua missão é atrair as pessoas ao interior de si mesmas para o encontro pessoal com Deus. A partir daí o próprio Senhor se encarrega de fazer sua transformação em suas vidas.

Os conselhos que dá a uma amiga revelam esse transbordamento de sua vida interior: “Sim, querida senhora, vivamos com Deus como com um amigo. Procuremos avivar a nossa fé para comunicar-nos com Ele através de todas as coisas, pois assim conseguiremos a santidade. Carregamos o céu dentro de nós... parece-me ter encontrado o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma. O dia em que compreendi isso, tudo se iluminou dentro de mim e muito gostaria de sussurrar esse segredo àqueles que amo, para que também eles, através de todas as coisas, se unam sempre a Deus e se concretize aquela oração de Jesus Cristo: ‘Pai, que sejam perfeitos na unidade’ (Jo 17,23)” (C 107).


 Ainda que sem esse título, Elisabeth da Trindade é ‘mestra’ na vida de oração. Basta tomar algum de seus escritos e todos nos sentimos envolvidos por um clima de interioridade. Nesta época em que vivemos, entre tantos desafios e questionamentos, Elisabeth nos desperta ao amor puro e genuíno para com o Senhor, para que possamos depois irradiá-lo, sendo agentes de transformação deste mundo.

 
Irmã Maria Elizabeth da Trindade, OCD – Carmelo S. José – Passos(MG)
 
 

07 de Novembro - Beato Francisco Palau

Francisco Palau - Fundador das Carmelitas Missionárias
e Carmelitas Missionárias Teresianas
 
Hoje a Igreja faz memória deste insigne pastor, o Beato Francisco Palau (1881 - 1872). Frade Carmelita Descalço e eremita que amou a Igreja e por ela gastou sua vida. Exerceu o ministério de Exorcista, foi padre conciliar do Vaticano I, segue uma de suas mais belas homilias:
"Deus em sua providência, dispôs não remediar nossos males, nem nos conceder suas graças, senão mediante a oração, e que pela oração de uns sejam salvos outros. (cf. Tg 5,16ss). Se os céus enviaram seu orvalho e as nuvens choveram o Justo, se abriu-se a terra e brotou o Salvador (cf. Is 45, 8), quis Deus que, à sua vinda, precedessem os clamores e súplicas dos santos profetas, particularmente as súplicas daquela Virgem singular que conquistou os céus com a fragância de suas virtudes e atraiu a seu seio o Verbo incriado. O Redentor veio e por meio de uma oração contínua reconciliou o mundo com seu Pai. Para que a oração de Jesus Cristo e os frutos da sua redenção se apliquem a alguma nação ou povo, para que haja quem o ilumine com a pregação do Evangelho e lhe administre os sacramentos, é indispensável que haja alguém ou muitos, que, com gemidos e súplicas, com orações e sacrifícios, tenha antes conquistado aquele povo e o tenha reconciliado com Deus.
 
A isto, entre outros fins, se dirigem os sacrifícios que oferecemos em nossos altares. A Hóstia Santa que apresentamos neles todos os dias ao Pai, acompanhada de nossas súplicas, não é só para renovar a memória da vida, paixão e morte de Jesus Cristo, mas também, para obrigar com ela o Deus de bondade a que se digne aplicar a redenção de seu Filho à nação, província, cidade, aldeia, àquela ou àquelas pessoas por quem se celebra a santa missa. Nela é onde propriamente se negocia a redenção com o Pai, ou seja, a conversão das nações. Antes que a redenção se aplicasse ao mundo, ou, o que é o mesmo, antes que o estandarte da cruz fosse hasteado nas nações, o Pai dispôs que seu Unigênito, feito carne, o negociasse com "súplicas contínuas, com veemente clamor e lágrimas" (Hb 5,7), com angústia de morte e com derramamento de todo o seu sangue, especialmente no altar da cruz, que levantou sobre o Calvário.
 
 
Deus, para conceder suagaça ainda àqueles que não a pedem nem podem ou não querem pedí-la, dispôs e ordenou: "Orai uns pelos outros par que sejam salvos" (Tg 5, 16ss). Se Deus deu a graça da conversão à Santo Agostinho, foi devido às lágrimas de Santa Mônica, e a Igreja não teria São Paulo, diz um santo Padre, se não fosse a oração de Santo Estevão. E é digno de notar-se aqui que os aoóstolos, enviados a pregar e ensinar a todas as nações, reconhecem que o fruto de sua pregação era efeito mais de sua oração que de sua palavra quando, na escolha dos sete diáconos para que se encarregassem das obras externas de caridade, dizem: "Quanto a nós, permaneceremos assíduos à oração e ao ministério da palavra" (At 6,4). Reparem bem, dizem que se aplicarão primeiro à oração e só depois desta ao ministério da palavra, porque sem dúvida, nunca foram converter um povo sem antes que na oração tivessem conseguido que se convertessem.
 
 
Jesus Cristo empregou toda a sua vida em orar e só três anos para pregar!
 
Assim como Deus não concede suas graças aos homens senão mediante a oração, porque deseja que o reconheceçamos como a fonte de onde dimana todo bem, assim também mão nos quer salvar dos perigos, nem curar-nos as chagas, nem consolar-nos nas aflições senão mediante a mesma oração"
 
Escritos Espirituais do Beato Francisco Palau, presbítero:
Luta da alma com Deus, Roma 1981, pp. 42-44; 135-136.
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Eles nos Precederam....





Dom Fernando Arêas Rifan*

No próximo dia 2 celebraremos a memória dos fieis defuntos, dos nossos falecidos, daqueles que estiveram conosco e hoje estão na eternidade, os “finados”, aqueles que chegaram ao fim da vida terrena e já começaram a vida eterna. Portanto, não estão mortos, estão vivos, mais até do que nós, na vida que não tem fim, “vitam venturi saeculi”. Sua vida não foi tirada, mas transformada. Por isso, o povo costuma dizer dos falecidos: “passou desta para a melhor!” Olhemos, portanto, a morte com os olhos da fé e da esperança cristã, não com desespero, pensando que tudo acabou. Uma nova vida começou eternamente. 

Para nosso consolo, ouçamos a Palavra de Deus: “Deus não criou a morte e a destruição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou todas as coisas para existirem... e a morte não reina sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1, 13-15). 

Os pagãos chamavam o local onde colocavam os seus defuntos de necrópole, cidade dos mortos. Os cristãos inventaram outro nome, mais cheio de esperança, “cemitério”, lugar dos que dormem. É assim que rezamos por eles na liturgia: “Rezemos por aqueles que nos precederam com o sinal da fé e dormem no sono da paz”. 

Os santos encaravam a morte com esse espírito de fé e esperança. Assim São Francisco de Assis, no cântico do Sol: “Louvado sejais, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum homem pode fugir. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Felizes dos que a morte encontra conformes à vossa santíssima vontade! A estes não fará mal a segunda morte”. “É morrendo que se vive para a vida eterna!”. S. Agostinho nos advertia, perguntando: “Fazes o impossível para morrer um pouco mais tarde, e nada fazes para não morrer para sempre?” 

Quantas boas lições nos dá a morte. Assim nos aconselha São Paulo: “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos” (Gl 6, 10). “Para mim o viver é Cristo e o morrer é um lucro... Tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo” (Fl 1, 21.23). “Eis, pois, o que vos digo, irmãos: o tempo é breve; resta que os que têm mulheres, sejam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 29-31). Diz A Imitação de Cristo que bem depressa se esquecem dos falecidos: “Que prudente e ditoso é aquele que se esforça por ser tal na vida qual deseja que a morte o encontre!... Melhor é fazeres oportunamente provisão de boas obras e enviá-las adiante de ti, do que esperar pelo socorro dos outros” (I, XXIII). O dia de Finados foi estabelecido pela Igreja para não 
deixarmos nossos falecidos no esquecimento.

Três coisas pedimos com a Igreja para os nossos falecidos: o descanso, a luz e a paz. Descanso é o prêmio para quem trabalhou. O reino da luz é o Céu, oposto ao reino das trevas que é o inferno. E a paz é a recompensa para quem lutou. Que todos os que nos precederam descansem em paz e a luz perpétua brilhe para eles. Amém


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Meditação - Quinto Mistério Doloroso - Jesus Morre na Cruz

                                                          Jesus Morre na Cruz

     
"Depois do violento choque da cruz, a cabeça de Jesus, coroada de espinhos, foi fortemente abalada e derramou grande abundância de sangue; também das chagas das mãos e dos pés correu o sangue em torrentes. Os carrascos subiram então pelas escadas e desataram as cordas com que tinham amarrado o santo corpo, para que o abalo não o fizesse cair. O sangue, cuja circulação fora quase impedida pela forte pressão das cordas e pela posição horizontal, afluiu-Lhe então de novo por todo o corpo e as chagas, renovando todas as dores e causando-Lhe um forte atordoamento. Jesus deixou cair a cabeça sobre o peito e ficou suspenso como morto, cerca de sete minutos.

Houve um momento de calma. Os carrascos estavam ocupados em repartir as vestes de Jesus; o som das trombetas perdia-se no ar, todos os assistentes estavam exaustos de raiva ou de dor. Olhei, cheia de susto e compaixão, para meu Jesus, meu Salvador, a Salvação do mundo; vi-O imóvel, desfalecido de dor, como morto e eu também estava à morte; pensava antes morrer do que viver.

Minha alma estava cheia de amargura, de amor e dor; minha cabeça, que eu sentia cercada de uma rede de espinhos, fazia-me quase endoidecer de dor; minhas mãos e meus pés eram como fornalhas ardentes; dores indizíveis passavam-me, como milhares de raios, pelas veias e nervos, encontrando-se e lutando em todos os membros interiores e exteriores de meu corpo, tornando-se uma nova fonte de sofrimentos. E todos esses terríveis tormentos não eram senão amor e todo esse fogo penetrante de dores era contudo uma noite, em que não vi senão meu Esposo, o Esposo de todas as almas, pregado à cruz e contemplava-O com muita tristeza e muita consolação.


A cabeça de Jesus, com a horrível coroa, com o sangue que Lhe enchia os olhos, os cabelos, a barba e a boca ardente, meio entreaberta, tinha caído sobre o peito e também mais tarde só podia levantar-se com indizível tortura, por causa da larga coroa de espinhos. O peito do Divino Mártir estava violentamente dilatado e alçado; os ombros, os cotovelos e os pulsos distendidos até saírem fora das articulações; o sangue corria-Lhe das largas feridas das mãos sobre os braços; o peito levantado deixava em baixo uma cavidade profunda; o ventre estava encolhido e diminuído; como os braços, estavam também as coxas e pernas horrivelmente deslocadas.


Os membros estavam tão horrivelmente distendidos e os músculos e a pele a tal ponto esticados, que se podiam contar os ossos. O sangue escorria-Lhe em redor do enorme prego que Lhe traspassava os pés sagrados, regando a árvore da cruz. o santo corpo estava todo coberto de chagas, pisaduras vermelhas, manchas amarelas, pardas e roxas, inchaços e lugares escoriados. As feridas reabriram-se, pela violenta distensão dos músculos e sangravam em vários lugares; o sangue que corria, era a princípio ainda vermelho, mas pouco a pouco se tornou pálido e aquoso e o santo corpo cada vez mais branco; por fim, tomou a cor da carne em sangue.

Mas, apesar de toda essa cruel desfiguração, o corpo de Nosso Senhor na cruz tinha um aspecto extremamente nobre e comovedor; na verdade, o Filho de Deus, o Amor Eterno, que se sacrificou no tempo, permaneceu belo, puro e santo nesse corpo do Cordeiro pascal moribundo, esmagado pelo peso dos pecados de toda a humanidade.


A pele da Santíssima Virgem, como a de N. Senhor, tinha por natureza, uma bela cor ligeiramente amarelada, mesclada de um vermelho transparente. As fadigas e as viagens do Mestre nos anos anteriores, lhe tinham tornado as faces, sob os olhos e a cana do nariz um pouco tostadas pelo sol.(...)  Os pés eram belos e bem desenvolvidos, a planta dos pés tinha-se tornado calosa, porque geralmente andava descalço por caminhos rudes. As mãos eram de bela forma, com os dedos longos e delgados, não delicados demais, mas também não como as de um homem que as emprega em trabalhos pesados. Agora (...) o cabelo fora arrancado em grande parte, o resto colado com sangue; o corpo era uma só chaga, o peito estava como que despedaçado, o ventre escavado e encolhido; em vários lugares se viam as costelas, através da pele lacerada; todo o corpo estava de tal modo distendido e alongado, que não cobria mais inteiramente o tronco da cruz.

O madeiro era um pouco arredondado do lado posterior, na frente liso, com várias escavações; a largura igualava-lhe mais ou menos a grossura. As diversas partes da cruz eram de madeira de diferentes cores, umas pardas, outras amarelas; o tronco era mais escuro, como madeira que tem estado muito tempo na água.

As cruzes dos ladrões, trabalhadas mais grosseiramente, foram instaladas ao lado direito e esquerdo do cume, a tal distância da cruz de Jesus, que um homem podia passar a cavalo entre elas; estavam um pouco mais baixo e colocadas de modo que olhavam um para o outro. Um dos ladrões rezava, o outro insultava Jesus que, olhando para baixo, disse uma coisa a Dinas.

O aspecto dos ladrões na cruz era horrendo, especialmente o do que ficava à esquerda, criminoso enraivecido, embriagado, de cuja boca só saiam insultos e maldições. Os corpos, pendentes da cruz, estavam horrivelmente deslocados, inchados e cruelmente amarrados. Os rostos tornaram-se-lhes roxos e pardos, os lábios escuros, tanto da bebida, como da pressão do sangue; os olhos inchados e vermelhos, quase a sair das órbitas. Soltavam gritos e uivos de dor, que lhes causavam as cordas; Gesmas praguejava e blasfemava.

Os pregos com que os madeiros transversais foram ajustados ao tronco, forçavam-nos a curvar a cabeça, moviam-se e torciam-se convulsivamente na tortura e apesar das pernas estarem fortemente amarradas, um deles conseguiu puxar um pé para cima, de modo que o joelho dobrado se lhe ergueu um pouco.

A primeira palavra de Jesus na cruz.


Depois de crucificar os ladrões e de repartir as vestes do Senhor, juntaram os carrascos todos os instrumentos e ferramentas e, insultado e escarnecendo mais uma vez a Jesus, foram-se embora. Também os fariseus, que ainda estavam, montaram nos cavalos e passando diante de Jesus, dirigiram-lhe muitas palavras insultuosas e seguiram para a cidade. Os cem soldados romanos, com os respectivos comandantes, puseram-se também em mancha, pois veio outro destacamento de cinqüenta soldados romanos, ocupar-lhes o lugar.

Esse destacamento era comandado por Abenadar, árabe de nascimento, que mais tarde, no batismo, recebeu o nome de Ctesifon. O oficial subalterno que estava com essa tropa, chamava-se Cassius; era também muitas vezes encarregado por Pilatos de levar mensagens; recebeu depois o nome de Longinus.

Vieram também a cavalo doze escribas e alguns anciãos do povo, entre os quais os que foram pedir mais uma vez outra inscrição para o título da cruz; Pilatos nem os tinha deixado entrar. Cheios de raiva, andaram a cavalo em redor do lugar do suplício e expulsaram dali a Santíssima Virgem, chamando-a de mulher perdida. João levou-a para junto das outras mulheres, que estavam mais afastadas; Madalena e Marta ampararam-na nos braços.

Quando, fazendo a volta da cruz, chegaram diante de Jesus, balançaram a cabeça, dizendo: “Arre! Impostor! Como é que destróis o Templo e o reedificas em três dias? Queria sempre socorrer os outros e agora não se pode salvar a si mesmo. – Se és o Filho de Deus, desce da cruz. Se é o rei de Israel, então desça da cruz e creremos nEle. Sempre confiava em Deus, que Ele venha salvá-Lo agora”. Os soldados também zombavam, dizendo: “Se és o rei dos judeus, salva-te agora”.

Quando Jesus ainda pendia desmaiado, disse Gesmas, o ladrão à esquerda: “O demônio abandonou-O”. Um soldado fincou então uma esponja embebida em vinagre sobre a ponta de uma vara e chegou-a aos lábios de Jesus, que pareceu chupar um pouco. As zombarias continuavam. O soldado disse: “Se és o rei dos judeus, salva-te.” Tudo isso se deu enquanto o destacamento anterior era substituído pelo de Abenadar.

Jesus levantou um pouco a cabeça e disse: “Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”; depois continuou a rezar em silêncio. Então gritou Gesmas: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós”. Escarneciam-nO sem cessar; mas Dimas, o ladrão da direita, ficou muito comovido, ouvindo Jesus rezar pelos inimigos. Quando Maria ouviu a voz de seu Filho, ninguém mais pôde retê-la: penetrou no círculo do suplício: João, Salomé e Maria, filha de Cléofas, seguiram-na. O centurião não as expulsou.

Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação Interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado, quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: “O que? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus”. A essa inesperada repreensão da boca de um miserável assassino, suspenso na cruz, deu-se um tumulto entre os escarnecedores; apanhando pedras, quiseram apedrejá-lo ali mesmo. Mas o centurião Abenadar não o permitiu; mandou dispersa-los e restabeleceu a ordem.

Durante esse tempo a Santíssima Virgem se sentia confortada pela oração de Jesus. Dimas, porém, disse a Gesmas, que gritara a Jesus: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós” – “Também tu não temes de Deus, apesar de sofreres o mesmo suplício que Ele? Quanto a nós, é muito justo, pois recebemos o castigo de nossos crimes; este, porém, não fez mal algum. Pensa nisto, nesta última hora e converte-te de coração”. Essas palavras e outras mais disse a Gesmas, pois estava todo comovido e iluminado pela graça; confessou suas faltas a Jesus e disse: “Senhor, se me condenardes, será muito justo; mas tende misericórdia de mim”. Respondeu Jesus:“Experimentáras a Minha misericórdia”. Dimas recebeu, por um quarto da hora, a graça de um profundo arrependimento.

Tudo que acabo de contar agora, se deu pela maior parte ao mesmo tempo ou sucessivamente, entre as doze horas e doze e meia, pelo sol, alguns minutos depois da exaltação da cruz. Mas dai a pouco mudaram rapidamente os sentimentos nos corações da maior parte do assistentes; pois enquanto o bom ladrão ainda estava falando, eis que se deu na natureza um fenômeno extraordinário, que encheu de pavor todos os corações.

  Eclipse do sol. Segunda e terceira palavra de Jesus na cruz.

Até pelas 10 horas, quando Pilatos pronunciou a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra; depois, até às 12 horas, o céu estava claro e havia sol; mas depois do meio dia, apareceu uma neblina vermelha, sombria, diante do sol. Pela sexta hora, porém, ou como vi pelo sol, mais ou menos às doze e meia, (a maneira dos judeus de contar as horas é diferente da nossa) houve um eclipse milagroso do sol. Vi como isso se deu, mas infelizmente não pude guardá-lo na memória e não tenho palavras para o exprimir.


A princípio fui transportada como para fora da terra; vi muitas divisões no firmamento e os caminhos dos astros, que se cruzavam de modo maravilhoso. Vi a lua do outro lado da terra; vi-a voar rapidamente ou dar um salto, como um globo de fogo; depois me achei novamente em Jerusalém e vi a lua aparecer sobre o monte das Oliveiras, cheia e pálida, - o sol estava velado pelo nevoeiro, - e ela se moveu rapidamente do oriente, para se colocar diante do sol.

No começo, vi no lado oriental do sol, uma lista escura, que tomou em pouco tempo a forma de uma montanha, cobrindo-o depois inteiramente. O disco do sol parecia cinzento escuro, rodeado de um círculo vermelho, como uma argola de ferro em brasa. O céu tornou-se escuro; as estrelas tinham um brilho vermelho.


Um pavor geral aponderou-se dos homens e dos animais, o gado fugiu mugindo, as aves procuravam um esconderijo e caiam em bandos sobre as colinas em redor do Calvário; podiam-se apanhá-las com as mãos. Os zombadores começaram a calar-se; os fariseus tentavam explicar tudo como fenômeno natural, mas não conseguiram acalmar o povo e eles mesmos ficaram interiormente apavorados. Todo o mundo olhava para o céu; muitos batiam no peito e, torcendo as mãos. Exclamavam: “Que o seu sangue caia sobre os seus assassinos”. Muitos, de perto e de longe, caíram de joelhos, pedindo perdão a Jesus, que no meio das dores volvia os olhos para eles.

A escuridão aumentava, todos olhavam para o céu e o Calvário estava deserto; ali permaneciam apenas a Mãe de Jesus e os mais íntimos amigos; Dimas, que estivera mergulhado em profundo arrependimento, levantou com humilde esperança o rosto para o Salvador e disse: “Senhor, fazei-me entrar num lugar onde me possais salvar; lembrai-vos de mim, quando estiverdes no vosso reino”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.


A Mãe de Jesus, Madalena, Maria de Cléofas, Maria Helí e João estavam entre as cruzes dos ladrões, em redor da cruz de Jesus, olhando para Nosso Senhor. A Santíssima Virgem, em seu amor de mãe, suplicava interiormente a Jesus que a deixasse morrer com Ele. Então olhou o Senhor com inefável ternura para a Mãe querida e, volvendo os olhos para João, disse a Maria: “Mulher, eis aí o teu filho; será mais teu filho do que se tivesse nascido de ti”. Elogiou ainda João, dizendo: “Ele teve sempre uma fé sincera e nunca se escandalizou, a não ser quando a mãe quis que fosse elevado acima dos outros”.A João, porém, disse: “Eis aí tua Mãe!”


João abraçou com muito respeito, como um filho piedoso, a Mãe de Jesus, que tinha tornado também sua Mãe, sob a cruz do Redentor moribundo. A SS. Virgem ficou tão abalada de dor, após essas solenes disposições do Filho moribundo, que, caindo nos braços das santas mulheres, perdeu os sentidos exteriormente; levaram-na para o aterro em frente à cruz, onde a sentaram por algum tempo e depois a conduziram para fora do círculo, para junto das outras amigas.

Não sei se Jesus pronunciou alto todas essas palavras; percebi-as interiormente, quando, antes de morrer, entregou Maria Santíssima, como Mãe, ao Apóstolo querido e este, como filho, a sua Mãe. Em tais contemplações se percebem muitas coisas, que não foram escritas; é pouco apenas o que pode exprimir a língua humana. O que lá é tão claro, que se julga compreender por si mesmo, não se sabe explicar com palavras.

Assim não é de admirar que Jesus, dirigindo-se à Santíssima Virgem, não dissesse: “Mãe”, mas mulher”; pois que ela ali estava na sua dignidade de mulher que devia esmagar a cabeça da serpente, naquela hora em que aquela promessa se realizava, pelo sacrifício do Filho do Homem, seu próprio filho. Não era admirar lá que Jesus desse João por filho àquela a quem o Anjo saudava: “Ave Maria, cheia de graça”, porque o nome de João significa “graça”; pois todos são o que os respectivos nomes significam e João tornara-se filho de Deus e Jesus Cristo vivia nele.

Percebia-se que Jesus, naquele momento, dava com aquelas palavras uma mãe, Maria, a todos que, como João, O recebem e, crendo nEle, se tornam filhos de Deus, que não foram nascidos do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas do próprio Deus. Sentia-se que a mais pura, a mais humilde, a mais obediente de todas as mulheres, que se tornara a Mãe do Verbo feito de carne, respondendo ao Anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra!”, agora, ouvindo do Filho moribundo que se devia tornar Mãe espiritual de outro filho, dizia, obediente e humilde, as mesmas palavras, no íntimo do coração, dilacerado das dores da separação: 

“Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra”, aceitando assim por filhos todos os filhos de Deus..."

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