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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cinzas para um Novo Tempo - por Dom Fernando Rifan*



                                                      

Hoje, quarta-feira de Cinzas, começa o importante tempo litúrgico da Quaresma, no qual a Igreja almeja que nos unamos mais intimamente ao Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mistério que inclui sua Paixão, sua morte e sua gloriosa Ressurreição.


“Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça (cf. 2 Cor 6, 2)”, nos explica o Papa Francisco em sua Mensagem, onde nos ensina a imitar o amor carinhoso e zeloso de Deus para conosco. 

“Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece... 

Coisa diversa se passa conosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem!”

Para vencer essa nossa indiferença, a Igreja instituiu o tempo da Quaresma, onde ouvimos a voz dos profetas para nos despertar do nosso comodismo. “A Deus não Lhe é indiferente o mundo”, nos lembra o Papa, “mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem”.

“Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação: 1. ‘Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros’ (1 Cor 12, 26); 2. ‘Onde está o teu irmão?’ (Gn 4, 9); 3. ‘Fortalecei os vossos corações’ (Tg 5, 8)”.]

“Por isso, amados irmãos e irmãs”, finaliza o Papa, “nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença”.

No Brasil, a Campanha da Fraternidade, que acontece na Quaresma, tem como finalidade unir as exigências da conversão, da oração e da penitência com algum projeto social, na intenção de renovar a vida da Igreja e ajudar a transformar a sociedade, a partir de temas específicos, tratados sob a visão cristã, convocando os cristãos a uma maior participação nos sofrimentos de Cristo, vendo-o na pessoa do próximo, especialmente dos mais necessitados da nossa ajuda. A Campanha da Fraternidade desse ano tem como tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e como lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45), para recordar a vocação e missão de todo o cristão e das comunidades de fé na sociedade, como sal da terra e luz do mundo.


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney



«A Oração da Quaresma
de Santo Efrén, o Sírio»



"Senhor e Mestre de minha vida,
afasta de mim o espírito de preguiça,
de abatimento, de domínio, de loquacidade,
e concede a mim, teu servo, um espírito de integridade,
de humildade, de paciência e de amor.
Sim, Senhor e Rei,
concede ver meus pecados e não julgar meus irmãos"
porque és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Esta oração é recitada duas vezes ao final de cada Ofício de Quaresma, de segunda a sexta-feira

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Reflexão para Abertura da Quaresma - São José Maria Escrivá

A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: Avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho quotidiano entre os meus companheiros de profissão? (Cristo que passa, 58)

Manter a alma jovem

Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cómodo; não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão - esse momento único, que cada um de nós recorda, em que advertimos claramente tudo o que o Senhor nos pede - é importante; mas ainda mais importantes e mais difíceis são as conversões sucessivas. É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão. (Cristo que passa, 57)

Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a Esperança, a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era isso apenas, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na v0ida cristã, porque esses actos externos são, repito, fruto da Fé, da Esperança e do Amor.(Cristo que passa, 57)


Aconselho-te que tentes voltar de vez em quando... ao começo da tua "primeira conversão", o que, se não é fazer-se como criança, é coisa muito parecida: na vida espiritual é preciso deixar-se levar com inteira confiança, sem medos nem duplicidades; tem de se falar com absoluta clareza do que se tem na cabeça e na alma. (Sulco, 145)

À conversão sobe-se pela humildade, pela via de se abaixar.(Sulco, 278)

Jesus passa ao nosso lado

Não podemos considerar esta Quaresma como uma época mais, repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança. (Cristo que passa, 59)

O chamamento do Bom Pastor chega até nós: Ego vocavi te nomine tuo, Eu chamei-te, a ti, pelo teu nome! É preciso responder - amor com amor se paga - dizendo-Lhe Ecce ego quia vocasti me - chamaste por mim e aqui estou! Estou decidido a que não passe este tempo de Quaresma como passa a água sobre as pedras, sem deixar rasto. Deixar-me-ei empapar, transformar; converter-me-ei, dirigir-me-ei de novo ao Senhor, querendo-Lhe como Ele deseja ser querido. (Cristo que passa, 59)

A conversão é coisa de um instante; a santificação é tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs nas nossas almas, aspira a crescer, a manifestar-se em obras, a dar frutos que correspondam em cada momento ao que é agradável ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar - nas novas situações da nossa vida - a luz, o impulso da primeira conversão. E essa é a razão pela qual havemos de nos preparar com um exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor para podermos conhecê-Lo melhor e conhecer-nos melhor a nós mesmos. Não há outro caminho para nos convertermos de novo.


É necessário convencermo-nos de que Deus nos ouve, de que está sempre solícito por nós, e assim se encherá de paz o nosso coração. (Cristo que passa, 58)

É necessário convencermo-nos de que Deus nos ouve, de que está sempre solícito por nós, e assim se encherá de paz o nosso coração. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta compartilhando; quer tudo. E aproximar-se d'Ele um pouco mais significa estar disposto a uma nova rectificação, a escutar mais atentamente as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.(Cristo que passa, 58)


É preciso decidir-se. Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a S. Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteiramente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a sua graça e, especialmente neste tempo, a graça de uma nova conversão, de uma melhoria da nossa vida de cristãos. (Cristo que passa, 59)

Voltar à casa do nosso Deus Pai

De certo modo, a vida humana é um constante voltar à casa do nosso Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus. (Cristo que passa, 64)

Muitas conversões, muitas decisões de entrega ao serviço de Deus, foram precedidas de um encontro com Maria. Nossa Senhora fomentou os desejos de busca, activou maternalmente a inquietação da alma, fez aspirar a uma transformação, a uma vida nova. E assim, o fazei o que Ele vos disser converteu-se numa realidade de amorosa entrega, na vocação cristã que ilumina desde então toda a nossa vida. (Cristo que passa, 149)

Nunca desanimes, porque Nosso Senhor está sempre disposto a dar-te a graça necessária para essa nova conversão que necessitas, para essa ascensão no terreno sobrenatural. (Forja, 237)


Texto completo da homilia pronunciada na Quaresma: "A Conversão dos filhos de Deus"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Nós e os Doentes - Por Dom Fernando Rifan






Dom Fernando Arêas Rifan*


Hoje, dia 11 de fevereiro, Festa de Nossa Senhora de Lourdes, se comemora também o Dia Mundial do Enfermo, porque, em Lourdes, na França, milhares de enfermos de todos os países e continentes ali vão para pedir a cura e a consolação, pela intercessão de Nossa Senhora, que a muitos tem curado e a todos consolado. Muitos milagres de cura ali acontecem. Mas os maiores milagres em Lourdes são as conversões dos milhares de pecadores. 


Jesus, durante a sua vida pública, curou alguns, mas não curou todos os doentes do seu tempo. Porque para alguns Deus quer que se salvem e façam o bem com a saúde; outros, com a sua doença. A doença pode ser uma graça de Deus. O mais importante é a cura da alma.

Em sua mensagem para o XXIII Dia Mundial do Doente, neste ano, o Papa Francisco se dirige a todos os que carregam o peso da doença e aos profissionais e voluntários da saúde.


“O tema deste ano convida-nos a meditar uma frase do livro de Jó: ‘Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo’ (29, 15). Gostaria de o fazer na perspectiva da ‘sapientia cordis’, da sabedoria do coração”.


“Sabedoria do coração é servir o irmão. No discurso de Jó que contém as palavras ‘eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo’, evidencia-se a dimensão de serviço aos necessitados por parte deste homem justo... Também hoje quantos cristãos dão testemunho – não com as palavras, mas com a sua vida radicada numa fé genuína – de ser ‘os olhos do cego’ e ‘os pés para o coxo’! Pessoas que permanecem junto dos doentes que precisam de assistência contínua, de ajuda para se lavar, vestir e alimentar. Este serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e pesado; é relativamente fácil servir alguns dias, mas torna-se difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até anos, inclusive quando ela já não é capaz de agradecer. E, no entanto, que grande caminho de santificação é este! Em tais momentos, pode-se contar de modo particular com a proximidade do Senhor, sendo também de especial apoio à missão da Igreja”.


“Sabedoria do coração é estar com o irmão. O tempo gasto junto do doente é um tempo santo. É louvor a Deus, que nos configura à imagem do seu Filho, que ‘não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão’ (Mt 20, 28). Foi o próprio Jesus que o disse: ‘Eu estou no meio de vós como aquele que serve’ (Lc 22, 27)”.


“Sabedoria do coração é sair de si ao encontro do irmão. Às vezes, o nosso mundo esquece o valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir, esquece-se a dimensão da gratuidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro”.

“Mesmo quando a doença, a solidão e a incapacidade levam a melhor sobre a nossa vida de doação, a experiência do sofrimento pode tornar-se lugar privilegiado da transmissão da graça e fonte para adquirir e fortalecer a sapientia cordis”.




*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Solenidade de Nossa Senhora do Lourdes


No dia 11 de fevereiro de 1858, a Santíssima Virgem Maria aparecia à humilde Bernadete Soubirous, para pedir à Igreja oração e penitência pela conversão dos pecadores. As mensagens de Nossa Senhora, saídas da gruta de Massabielle, nos arredores da cidade francesa de Lourdes, até hoje ecoam no coração dos fiéis que, maravilhados com o amor da Mãe que veio ao encontro de Santa Isabel e vem, agora, ao encontro de seu povo, peregrinam à França buscando alívio para o corpo e para a alma.

O filme narra a vida de Bernadete de Soubirous e as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, França, onde ela revela sua Imaculada Conceição. Bernadete, jovem pobre e simples, é desacreditada pelas autoridades, mas os milagres de Nossa Senhora e a fé do povo que acorre a ela comprovam a verdade das aparições e a validade dos milagres. Bernadete não se deixou dominar pelo medo das acusações, testemunhou a verdade dos fatos até o fim de sua vida.

Homilia



1. Uma intensa luz, brilha sobre a página mais negra da nossa história humana e divina! Ali, onde abundou o pecado e a desobediência do Homem e da Mulher, sobreveio, como uma luz intensa, na mais densa noite dos tempos, a promessa da salvação, a garantia da nossa cura e da nossa libertação! Ali, onde a humanidade falhou, num abuso de liberdade criada, Deus não abandonou à desgraça a sua criatura! A história do pecado original faz brilhar, sobre os escombros da miséria humana, a promessa do amor divino, verdadeira luz invencível.

2. Mas que nos diz afinal, e de essencial, esta história, tão antiga e sempre nova, do pecado original?

Ela, de algum modo, desenha-nos um forte contraste de luzes e de sombras, a partir do coração do homem! A pessoa humana, é «capaz de Deus» e de viver em comunhão com Ele. Essa é a sua vocação original. Mas a mesma criatura humana é também vulnerável, na sua liberdade, a ponto de se deixar seduzir pelo mal e de se furtar ao amor de Deus! Esta contradição, no mais íntimo do ser da pessoa, não é um dogma nem uma teoria. Cada um de nós a experimenta todos os dias. Disse-o com toda a sinceridade o Apóstolo Paulo: “Não faço o bem que quero e faço o mal que não desejo” (Rom.7,18-19) O mal existe simplesmente! E sobre isso, não há sombra de dúvida! Como consequência deste poder do mal, desenvolveu-se, desde as origens e ao longo dos séculos, um rio sujo, que envenena a geografia da história humana! Estamos assim, perante dois mistérios: o da luz e o da escuridão!

3. Como mistério da luz, podemos enunciar esta primeira certeza da fé: não há neste mundo, dois princípios, um bom e um mau! Há um só princípio, um só Deus criador! E este princípio é bom, unicamente bom, sem sombra de mal. E por isso também o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, não é uma mistura de bem e de mal! O ser humano, como tal, é bom, e por isso é bom existir, é bom viver! Este é o alegre anúncio da fé: só há uma fonte boa, Deus Criador, do qual recebemos tudo o que somos e vivemos. E por isso, viver é um bem! É bom ser homem, é bom ser mulher!




4. Mas paira ainda sobre nós, e tão densamente, o mistério do mal. Como foi possível, como aconteceu? Isso permanecerá, sempre obscuro para nós, tão obscuro e irracional, como é a escuridão do próprio mal! A imagem, descrita na primeira leitura, poderá ajudar-nos a intuir algo da origem desse mal, mas não pode explicar o que, em si mesmo, não tem lógica. O que podemos saber, no meio de toda esta escuridão, é que o mal não provém do próprio ser de Deus, nem pertence ao ser da pessoa. O pecado permanece como uma marca de origem, mas não como um defeito de fabrico! O mal vem e provém de uma liberdade abusada!

Mas, ainda assim, neste jogo de luzes e sombras, Deus, com a sua luz, é sempre mais forte. E por isso, o mal pode ser superado. A criatura humana pode ser curada. Para isso, Cristo veio a este mundo e fez brotar, para nós, uma fonte de graça, abriu, no mar das nossas desgraças, um rio de luz!

5. Meus queridos irmãos: Estamos em Advento e todos nos propusemos ser e receber dessa luz, que é Jesus! Essa luz, aliás, já brilha e devemos abrir os olhos do coração para a vermos e assim entrarmos nesse rio da luz. Mas este caminho, com frequência, torna-se escuro, duro e cansativo, porque a noite escura do mal é ainda muito forte.

Por isso, para chegarmos a ser e a receber esta Luz, precisamos de luzes próximas de nós, de pessoas que reflictam a luz de Cristo e iluminem o nosso caminho a percorrer!

E que pessoa mais luminosa do que Maria? Quem, melhor, do que Maria, pode ser para nós essa “estrela de esperança (cf. Enc. Spe salvi, 49) que nos guia? Ela é a primeira criatura, redimida pela Luz, daquele que veio a dar à Luz. Com o seu "sim", Maria consentiu, que a Luz de Deus entrasse neste mundo. Por meio dEla, Deus fez-se carne, entrou na história, como nova fonte do bem! Por isso, animados por filial confiança, pedimos-lhe:

"Maria, Estrela da nossa esperança, indica-nos o caminho da Luz. Tu, nossa companheira, no caminho para a luz, brilha sobre nós! Tu que trepidante nos esperas nessa luz sem ocaso, guia-nos nas dificuldades de cada dia, agora e na hora da nossa morte. Amém!"

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2008
Fonte : ABC da Catequese


Famílias como Coelhos - Por Dom Fernando Rifan



Dom Fernando Arêas Rifan*


“É para se deplorar de modo particular a imprensa que, de tempos em tempos, volta sobre a questão (da família numerosa) com a intenção manifesta de lançar a confusão no espírito do povo simples e induzi-lo ao erro por documentações tendenciosas, por pesquisas discutíveis e mesmo por declarações falseadas deste ou aquele eclesiástico”. Assim dizia o Papa Pio XII, no seu discurso aos dirigentes e representantes das Associações de Famílias Numerosas, em 20 de janeiro de 1958.

A imprensa sensacionalista procurou ressaltar negativamente uma afirmação do Papa Francisco, na viagem de volta das Filipinas para Roma, em 18 de janeiro de 2015, pinçada do colóquio informal com os jornalistas no avião, sobre o número de filhos de uma família: “Alguns acham, desculpem-me pela palavra, que para ser bons católicos precisamos ser como coelhos. Não! Paternidade responsável. Isto é claro”.

Uma frase fora do contexto pode ser apenas um pretexto. Não se pode dizer tudo, toda a doutrina, em todos os lugares e em todas as afirmações,ao mesmo tempo. Há que se ver o conjunto. O conjunto de que falo é toda a doutrina católica. Como na Bíblia. Citando frases fora do contexto e do conjunto, pode-se provar qualquer coisa. Pinçando frases e doutrinas, sem o conjunto, é que se fizeram as heresias.

Antes da frase dos “coelhos”, o papa Francisco tinha dito: “A presença das famílias numerosas é uma esperança para a sociedade. O fato de termos irmãos e irmãs nos faz bem; os filhos e filhas de uma família numerosa são mais capazes de comunhão fraterna desde a primeira infância. Em um mundo marcado tantas vezes pelo egoísmo, a família numerosa é uma escola de solidariedade e de fraternidade, e estas atitudes se orientam depois em benefício de toda a sociedade” (28-XII-2014).

No avião, ele disse aos jornalistas: “A abertura à vida é a condição do sacramento do matrimônio, a ponto de que esse matrimônio é nulo caso se possa provar que ele ou ela se casou com a intenção de não estar aberto à vida. É causa de nulidade matrimonial. Isto não significa que o cristão tem que ter filhos em série. Isto é tentar a Deus. E alguns, talvez, não são prudentes nisto. Falamos de paternidade responsável. Esse é o caminho”.

Depois das interpretações erradas das suas palavras, o papa disse: “Dá consolação e esperança ver tantas famílias numerosas que acolhem os filhos como um verdadeiro dom de Deus. Eles sabem que cada filho é uma bênção. Escutei que as famílias com muitos filhos e o nascimento de muitos filhos estão entre as causas da pobreza. Acho uma opinião simplista. Eu posso dizer, todos podemos dizer, que a causa principal da pobreza é um sistema econômico que tirou a pessoa do centro e colocou o deus dinheiro, um sistema econômico que exclui, exclui sempre, exclui as crianças, os idosos, os jovens sem trabalho... e que cria a cultura do descarte em que vivemos. Nós nos acostumamos a ver pessoas sendo descartadas. Este é o motivo principal da pobreza, não as famílias numerosas” (21-I-2015) (Cf. ZENIT, 30/1/2015).



*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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