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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Junto à Fonte da Vida, o fulgor de uma nova Luz! - Recordando os 500 Anos do Nascimento de Santa Teresa - II





Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal, na Eucaristia
do 500º Aniversário de nascimento de Santa Teresa de Ávila
Igreja do Carmo – Funchal, 28 de Março de 2015

Junto à Fonte da Vida, o fulgor de uma nova Luz!

Neste ano dedicado à Vida Consagrada, temos a feliz coincidência do quinto centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus, nascida em Ávila, a 28 de Março de 1515. É com muita alegria que estamos a celebrar o ano jubilar teresiano pleno de graças e de riqueza eclesial, daquela que antes de morrer pronunciou com ardente amor e imensa gratidão: “sou filha da Igreja”.


De origem nobre, inteligente e determinada, humilde e alegre, a jovem Teresa apaixonou-se por Jesus Cristo e professou solenemente na Ordem de Nossa Senhora do Carmo, em Ávila. Favorecida pelo Senhor com admiráveis graças e dons sobrenaturais, a santa espanhola foi uma insigne mestra de oração, iniciou e empenhou-se, generosamente, na reforma da Ordem Carmelita, conforme o espírito primitivo.

A pedido dos seus confessores, deixou uma vasta obra escrita sobre o percurso oracional até aos mais altos cumes da mística, com grande profundidade espiritual e teológica. Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja, a 27 de Setembro de 1970.

Sabedoria de Deus, um novo olhar

A Palavra que a liturgia nos apresenta para esta solenidade refere-se à oferta da água viva que alegra, ilumina o coração e devolve-nos um novo olhar para contemplarmos e penetrarmos na Fonte que jorra para a Vida eterna, como Santa Teresa de Jesus.

A simbologia da água foi sempre muito querida a Teresa de Jesus, para comunicar às suas Irmãs Carmelitas o tesouro inesgotável da sabedoria e a ciência do amor divino. Ela própria experimentou na sua vida a beleza profunda da oração e da altíssima intimidade com Deus, a quem trata reverentemente por “Sua Majestade”.

No texto que escutámos, (...) ressalta a superioridade dos bens de ordem espiritual sobre os bens materiais. Aliás, é um dos temas constantes na literatura sapiencial bíblica. Consciente da sublimidade do tema, o autor do livro da Sabedoria pede a Deus luz para poder comunicar convenientemente as palavras divinas. “Com ela me vieram todos os bens e nas suas mãos está uma riqueza incalculável” (Sab 7,11). A autêntica sabedoria é um “reflexo da luz eterna”.

Os santos, como Santa Teresa de Jesus, aprenderam, sob a ação do Espírito Santo, a orientar a sua liberdade para a Verdade total, configurando-se com Cristo e com o Evangelho. “Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).Por isso, a sua vida transformou-se num belo Cântico de Amor, de Sabedoria e de Beleza. A grande santa carmelita foi um astro resplandecente, que iluminou e continua a iluminar a Igreja e o mundo com o seu testemunho refulgente.

No abismo da luz divina

Acabámos de escutar o diálogo surpreendente entre Jesus e uma mulher, que se transformou numa das mais belas páginas do Evangelho de S. João. Sabemos que Santa Teresa sentia uma grande predileção pelo relato evangélico da samaritana, com quem se identifica. A santa contemplava, abismada, o mistério destas duas sedes: sede infinita de Deus pela humanidade; sede insaciável da parte da mulher, “porque Deus satisfaz e deixa-a com uma sede maior d’Ele”, diz Teresa fascinada, e acrescenta: “Com que sede se deseja ter esta sede”.

Também nós, estamos à beira do poço para saciar a nossa sede. "Mas quem beber da água que Eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna"(Jo 4,14). Esta água, que Jesus nos oferece, atinge as exigências mais profundas do coração humano sedento de essencial, de amor, de paz e de luz, de vida eterna. A fé em Jesus nasce do testemunho e do contacto “pessoal e amoroso” com Ele, único Salvador do mundo, como nos recomenda Santa Teresa.

Só Deus basta!
Além da reforma da sua Ordem, Teresa legou-nos, com a sua sábia pena de escritora, a riqueza dum admirável património espiritual e místico mundial sobre a oração, que é um ensinamento de grande sabedoria, beleza e atualidade. “Só Deus basta!” Foi a primeira mulher proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI, a 27 de Setembro de 1970.

Teresa fala-nos da sua experiência orante, uma belíssima história de amizade com Jesus Cristo. “A oração não é outra coisa senão tratar intimamente com Aquele que sabemos nos ama”. Teresa sente que Jesus está sempre a seu lado. E com esta companhia tinha forças para sofrer, viver e aceitar em tudo a Sua vontade. Depois da sua morte teve grandes seguidores e seguidoras, apesar de “ser mulher e ruim”, como ousava dizer com profunda humildade. Entre elas recordo a doutora Edite Steien, carmelita, a Irmã Benedita da Cruz, filósofa, santa e mártir do século XX.

O perfil espiritual de Santa Teresa
Teresa não é apenas a mística, com experiências sobrenaturais inacessíveis, mas é sobretudo a mulher humaníssima, cheia de alegria e de humor, que encantava todos os que conviviam com ela. “De devoções às tontas, Deus nos livre”, dizia Teresa apontando sempre para Jesus e seu Evangelho.

Na época conturbada em que viveu, manteve-se sempre fiel ao magistério da Igreja, fazendo-se rodear por grandes teólogos e letrados: S. João da Cruz, P. Graciano, S. Pedro de Alcântara e S. João de Ávila, que a esclareciam nos caminhos do espírito e graças sobrenaturais de oração. São dela estas palavras de elevada espiritualidade e grande sabedoria: “O amor não consiste em ter lágrimas, nem tão pouco gostos e ternuras que geralmente desejamos e com os quais nos consolamos, mas em servir a Deus com justiça, fortaleza de ânimo e humildade. O amor a Deus e ao próximo não são boas razões, mas obras”.

Sabemos quanto teve de sofrer devido à doença, com os trabalhos das fundações e outras contrariedades. Com alegria, por amor de Jesus e pela salvação dos irmãos e irmãs, abraçou a Cruz corajosamente, em abandono e pobreza evangélica.

No abraço da eternidade
Na noite de 4 de Outubro de 1582, falecia Teresa de Jesus, com sessenta e sete anos, em Alba de Tormes. Esta admirável filha da Igreja, com o seu olhar fixo na eternidade, diz com grande alegria e gratidão: “Já é tempo de caminhar”. O Papa Francisco, na mensagem ao Bispo de Ávila, neste Ano Jubilar Teresiano, acrescenta: “Já é tempo de caminhar, andando pelos caminhos da alegria, da oração, da fraternidade, do tempo vivido como graça! Percorramos os caminhos da vida pela mão de santa Teresa. Seus passos conduzem-nos sempre a Jesus”.

Neste tempo em que a crise de identidade projeta as pessoas para fora de si mesmas, numa cultura de superficialidade e vazio, Teresa convida-nos a viver a urgência da intimidade com Jesus, o Amigo, crucificado e glorioso, no silêncio da escuta e da oferta da vida, pautada pelo Evangelho, no compromisso com Deus e com os outros.

Caminho de luz
Queridos diocesanos da Madeira e Porto Santo: neste dia de luz e de graça, peço a Nossa Senhora do Carmo abençoe a Ordem Carmelita, que tanto enriquece a nossa Igreja diocesana, pelo seu notável serviço pastoral, no acolhimento e escuta dos fiéis, em especial, no sacramento da Reconciliação e orientação espiritual.

Faço votos de que o “Caminho de Luz”, feliz iniciativa dos 500 anos, percorrido com o bastão que Santa Teresa usou nas fundações, ilumine o coração da humanidade e todos aqueles que anunciam a verdadeira Luz do mundo, Cristo Jesus.


Funchal, 28 de Março de 2015
†António Carrilho, Bispo do Funchal

http://www.diocesedofunchal.pt/

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